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Privilégio e Protagonismo
Você acha que não é privilegiado.
Você acha que porque seus pais se esforçaram para te mandar para a faculdade, você não tem nada de diferente.
Você acha que por eles trabalharem muito por você, que não tem nada a mais que milhares de outros.
Você acha que é igual a todo o resto do mundo. Que está na mesma "luta" que todos os outros.
Você não vê que apenas esse ato, dos seus pais cuidarem de você, já é um privilégio.
Você acha que a cor da sua pele não te diferencia.
Você acha que conhecer fulano ou ciclano não te faz melhor que outros.
E você acha que todos tem as mesmas condições.
Você acha que quem está na cadeia, no tráfico de drogas e na periferia escolheu estar lá.
Você acha que todo mundo tem escolha, porque você tem.
E você acha que as pessoas tem prioridades diferentes, você acha que elas escolhem ter um celular a ter uma casa própria.
Você acha que as pessoas vivem as custas do governo. Mesmo enquanto você trabalha para ele.
Mas você trabalha, você se esforça para ter o que tem.
E seus filhos vivem às suas custas, porque eles podem. Porque você trabalha duro para eles.
E você não acha que eles são privilegiados. Eles são iguais a todos os outros filhos.
Você acha que quem está descontente com uma situação, que reclame.
Mas você não cala a boca para ouvir a reclamação alheia.
Você nunca cala a boca.
Você nunca ouve os outros.
Você tem seu lugar de fala. Aliás, você fala pra caralho.
Você não deixa ninguém mais falar.
Não, não é mais seu lugar para falar. Não é meu lugar também.
Apenas cale a boca e escute.
Da prateleira de:
Ácidos
Ilusões Desiludidas
Faz alguns dias me perguntei se você não seria apenas uma ilusão da minha mente.
A resposta veio agora.
Sim.
Sim, você é.
Não somos as mesmas pessoas que fomos anos atrás.
Eu mudei muito.
Você, mais ainda.
Tão distantes daquilo que éramos.
Não é incrível a claridade que vem com ciúmes psicótico?
(Peguei essa frase do meu filme favorito.)
Uma claridade tão fresca, tão expansionista, que me puxou de volta à realidade.
Você é uma ilusão.
Talvez sempre tenha sido uma ilusão.
E agora, mais do que nunca, estou deixando essa ilusão desaparecer.
Minha solidão não está mais me matando.
Então, baby, don't hit me no more.
Da prateleira de:
Ácidos
Mas Que Idiota
Às vezes eu não entendo algumas pessoas.
Não, pra falar a verdade, não entendo alguns caras.
Pra que dizer que você beijaria uma menina se no final não o vai?
Pra que combinar algo e não cumprir?
Não é mil vezes mais fácil falar que não irá e pronto?
Não dar nenhuma esperança?
Cortar o mal pela raiz?
Por que é que as mulheres tem que ser tão claras ao rejeitar um cara, mas os homens podem enrolá-las tanto?
E dizem que as mulheres que são confusas.
Apenas um beijo.
Não um pedido de casamento.
Ou um ultimato de gravidez.
Era apenas um beijo.
Idiota. É só o que consigo pensar pra nomear sua atitude.
Idiota. É só o que consigo pensar pra te nomear.
Você pode ser o que for, mas é também, um idiota.
(E no momento te odeio com todas as forças.)
Crueldade
É incrível como às vezes praticidade pode ser confundida com crueldade.
Mas as duas são coisas diferentes.
Uma pessoa prática é aquela que quer sacrificar um animal
quando ele está velho e cansado, para acabar com suas dores.
A pessoa cruel quer sacrificá-lo porque acha que ele é uma
praga.
A pessoa prática é a que diz “não consigo entender porque
você não o denuncia”.
A cruel é aquela que fala “você é tão estúpida por não
denunciá-lo”.
A pessoa prática diz “não acho que somos bons um pro outro mais”.
Já a cruel fala “conheci outra pessoa”.
Ninguém tem mãos tão frias.
Nem mesmo a chuva.
Minhas mãos são frias, mas pelo menos são práticas.
A chuva não é.
Da prateleira de:
Ácidos
Sucesso
Sucesso. Está aí uma coisa que a maioria das pessoas deseja. Se não explicitamente, no mais íntimo do seu ser.
E é estranho.Porque quase todas as pessoas conseguem atingir o sucesso.
O problema é que alguns o confundem com fama.
E essa raríssimas pessoas alcançam.
A fama requer trabalho duro. Sim. Mas o que é realmente necessário para se ter fama é sorte.
Uma boa, gigantesca, inimaginável, dose de sorte.
E sorte é dividida desigualmente, cegamente e desnecessariamente.
Ao contrário da Justiça, Fortuna enxerga e ouve muito bem. Ela só é má por natureza.
Ao contrário do sucesso.
O sucesso não depende de uma deusa romana. Ou de deuses de nenhuma das mitologias.
Depende apenas de você.
É um pensamento intrínseco na sociedade que, se você trabalhar duro o bastante, e com força de vontade o bastante, conseguirá dinheiro e fama.
Mas não é verdade.
Você conseguirá sucesso.
E sucesso não é uma foto sua na capa de uma revista. Ou um discurso seu entre os vídeos mais vistos do Youtube. Ou ainda seu livro na lista de mais vendidos.
Sucesso é o sorriso que aparece em seu rosto toda a vez que um cliente dá uma boa gorjeta e o elogia ao gerente.
Sucesso é quando o paciente procura por você e apenas você para tratar dele, por causa da sua gentileza e o tratamento que deu a ele, como se estivesse tratando de seus próprios filhos.
Sucesso é quando você organiza todos os papéis daquele arquivo tão perfeitamente que seu chefe te dá um sorriso orgulhoso e fala a todos no escritório quão bom você é.
Ou quando você limpa o chão com tanta vontade que seu próprio reflexo pode ser visto nele.
Sucesso não é aparecer na televisão.
Sucesso é fazer o que gosta e fazê-lo bem feito. Não importa o que for. Garçom, médico, secretário, faxineiro.
O que se faz para ganhar a vida não te faz um perdedor ou um ganhador.
Mas sim como você o faz.
Fazer as coisas bem feito e se sentir feliz com o que está fazendo.
Isso é ter sucesso.
Perguntas de Uma Geração Perdida
Nossa geração está perdida. Não pelo grande número de gays assumidos que circulam pelas ruas de mãos dadas. Não por nossas mulheres se vestirem como "vadias".
As gerações antes de nós tiveram uma ditadura e suas poupanças roubadas.
Estamos perdidos em um labirinto de ideias e informações.
Nós não temos pelo que lutar.
E aí temos uma manifestação pacífica que acabou não sendo tão pacífica assim.
E outra manifestação que foi pacífica mas que o despreparo por parte das autoridades acabou por torná-la muito menos pacífica que a primeira.
A desculpa usada para as manifestações chega a ser até ridícula. Mas desculpas não são todas ridículas?
"Não é isso que você está pensando", "to chegando", "só mais um episódio".
Agora a causa. Aí é que pega. Qual é realmente a causa?
A corrupção? Mas essa não deveria ser combatida nas urnas?
A violência? Por parte de quem?
Existem muitas perguntas sem respostas.
E com essas perguntas, outras perguntas mais.
Qual a solução para todas as revindicações? Soluções concretas existem?
Quem está por trás de tudo isso?
É alguém que vai mudar algo mesmo? Ou iremos reencenar A Revolução dos Bichos mais uma vez?
(Porque 1917 não foi suficiente.)
Estamos procurando uma causa pela qual lutar.
Mas será que estamos escolhendo a certa?
Será que é realmente necessário lutar por algo?
Então ocorre um grande ato de repressão. E os espíritos são reacesos. Jovens se sentem dentro do romance de Vítor Hugo. Aí está sua causa! Aí está pelo que lutar!
Mas será mesmo? Será que estamos vendo isso do ângulo certo?
Será que não estamos olhando perto demais? Talvez seja necessário um olhar mais amplo. Erguer a cabeça um pouco para ver o que está lá em cima.
Acima das balas de borracha e do gás lacrimogêneo.
Sei que é difícil, sei que é dolorido. Sei que não fomos ensinados a isso.
Erguer a cabeça. Fomos sempre ensinados a dizer "sim, mamãe", "sim, professora".
Será que essa é uma luta do povo mesmo?
E se for ganha (utopia, mas não custa nada pintar o cenário na imaginação), o que é que acontece?
Bom, sabemos como terminaram as lutas dos livros.
E espero que não tomemos o mesmo rumo. Não quero nem virar porca, muito menos acabar morta.
Uma Namorada
Eu na verdade nunca gostei de você. Consigo enxergar isso claramente agora.
Não do jeito que eu achava que pudesse gostar durante aquele pequeno período de tempo.
E acho que você nunca gostou de mim desse jeito também.
Tudo o que não ocorreu entre nós, as palavras não ditas e as atitudes não tomadas. Nem só por isso é que afirmo que você nunca gostou de mim.
Não desse jeito que você pensou que gostava.
Quer dizer, pensou? Você alguma vez pensou que gostava de mim?
Alguma vez chegou a meramente cogitar que gostava de mim?
Bom, não vem ao caso. O caso é que a gente não se gostava. Porque se se gostasse teria pelo menos tentado ficar junto. Uma pergunta adivinhada e uma resposta tão explicada não deveriam ter nos parado. Se a gente se gostasse mesmo.
Se estivéssemos em busca da mesma coisa.
Mas não era o caso também. Porque você estava procurando por uma namorada.
Alguém que segurasse sua mão enquanto passeavam pela rua. Alguém pra assistir as mesmas coisas chatas que você. Alguém pra ir no cinema. (Eu nem gosto tanto assim de cinema.)
E eu só queria alguém que gostasse de mim.
Não pelas coisas que eu gosto, ou pelo que eu falo.
Mas pelo conjunto todo. Pela minha pessoa.
Alguém que eu também gostasse de volta.
E você só queria uma namorada.
Da prateleira de:
Ácidos
Vamos Fugir?
Vamos fugir?
Não.
Esqueça que eu disse isso. Finja que não foi pra você que perguntei. Que não estava te dirigindo a palavra. Finja que estava cantarolando a música.
Esqueça.
Não que eu não queira fugir. Ainda quero.
Só não quero ir com você.
Não me entenda mal, não é algo pessoal.
Não quero ir nem com você nem com ninguém.
Quero fugir sozinha.
Deixar tudo que me lembra o agora pra trás.
Recomeçar. Nem que seja durante um pequeno período de tempo.
Fugir das pessoas, dos lugares, dos ares e da rotina.
Fugir de mim mesma.
É por isso que não quero que vá comigo.
Você só vai me lembrar de tudo o que quero fugir.
De tudo o que preciso fugir.
Às vezes a gente só precisa de um escape.
Fugir da realidade.
Mas às vezes, a gente precisa fugir de verdade.
Algumas pessoas não foram feitas para gaiolas.
Pensamentos, Palavras, Atos e Omissões
Ainda bem que eu não te disse tudo o que queria te dizer.
Queria te perguntar o que foi que aconteceu. Se eu fiz alguma coisa. Ou se foi você.
Queria saber porque é que você nem se desculpou. Ou porque não me deu uma desculpa qualquer.
Porque não me disse mais nada.
Mas ainda bem que não fiz.
Estávamos conversando, eu e uns amigos, e fiquei sabendo do caso de uma menina. Uma menina que podia ser muitas. Que provavelmente é muitas.
Ela fez a burrice de exigir satisfação de uma coisa que nem um relacionamento era. Não sabia que ficar com alguém duas vezes não é nada. Agiu como muitas outras, e ficou taxada de sem noção.
Porque só pessoas que não tem noção do que é um relacionamento agem assim.
Pessoas que não percebem a dica das outras.
Que quando alguém para de falar com você, é porque não quer mais nada. Ou porque nunca quis nada.
Eu até pensei em te procurar. Na minha cabeça já estava te mandando milhões de perguntas.
Mas ainda bem que os atos são diferentes dos pensamentos.
Já existem muitas pessoas sem noção no mundo.
E o que mais me assusta é o quão perto passei de ser uma delas.
Da prateleira de:
Ácidos
Cidadezinha Qualquer
Cidades natais são engraçadas. Não circo engraçadas. Mais estranhas engraçadas.
Aquela mesma rua de comércio, onde letreiros e fachadas mudam com o tempo, mas as lojas continuam as mesmas.
Aquela sorveteria que seus pais te levam desde de criança, com mais opções de coisas pra colocar no sorvete do que opções de sabores em si.
Aquela mesma visão da sua janela: a rua, árvores, céu.
Há coisas que as cidades do interior tem que não fazem a mínima falta.
Encontrar pessoas (que você não gosta muito) na rua sempre que dá um passo pra fora de casa. Falta de opção do comércio. As três casas noturnas que se pode ir no fim de semana (duas delas tocam sertanejo). As pessoas novas que você conhece que nunca são novas de verdade porque são amigas ou até irmã(o)s de conhecidos.
A não aceitação. Os olhares atravessados por não estar usando as mesmas roupas que todo mundo.
O que se tem ser muito maior que o que se é.
As aparências provincianas. Como em uma história tirada da Geração Romântica do século XIX. Apenas trocaram-se as roupas. As atitudes continuam iguais.
E ainda sim, às vezes se sente aquela saudade. Porque há algumas coisas que apenas cidadezinhas do interior ostentam.
Conseguir encontrar a constelação do seu signo no céu estrelado. Comer até dizer chega e poder sentar no sofá sabendo que não precisa fazer nada o resto da tarde.
Abraço de mãe.
Mas Elas São Todas Iguais!
É difícil admitir que um dia você mudou alguma coisa para se enturmar. O cabelo, o jeito de falar, as roupas.
Não é uma coisa que se sente orgulho por ter feito, mas a maioria de nós já o fez em algum momento da vida. Mesmo sem ter consciência disso. Quase sempre sem ter consciência.
Nessa sociedade que preza cada vez mais o individualismo, não se encaixar em um certo comportamento de grupo é inaceitável.
Mas às vezes percebemos que o que estamos fazendo não é bom para nós. Não é algo de nós mesmos. Mudar por um outro para que ele te aceite. É um tanto quanto loucura.
Algumas pessoas vão tão a fundo nisso, e levam o sentimento de se enturmar tão a sério, que acabam ficando parecidas umas com as outras. É algo como o que vemos em grupos de garotas: cabelos lisos compridos normalmente castanhos ou com luzes, roupas de mesmas marcas, maquiagem parecida.
Parece que nenhuma tem personalidade própria. Que para se enturmarem tiveram que deixar de ser elas mesmas e se tornar "o grupo", a outra refletida em si, e si refletida na outra.
Falam, andam, gesticulam do mesmo jeito. E parecem realmente assustadas em presença do diferente.
Pessoas que agem igual tendem a desprezar, e muitas vezes hostilizar o diferente.
Se não tem a mesma aparência que elas não serve para ser visto no mesmo ambiente que elas frequentam.
É algo enojante. E algo que nunca conseguirei entender.
Por que pessoas querem ser iguais se a beleza está nas diferenças?
Por que usar as mesmas roupas e ter os mesmos cortes de cabelo?
Falar com as mesmas pessoas e fazer sempre as mesmas coisas?
Nunca vou entender essa acomodação com o "mais do mesmo". Essa necessidade de se cercar de pessoas idênticas e sem graça.
E de se achar melhor que os outros que são um pouquinho diferentes.
Até porque não há nada de superior em desprezar diferenças.
Pessoas que cultivam as diferenças não conseguem ser iguais a outras por muito tempo. Acaba cansando, irritando.
E é aí que "amizades" acabam. Que relacionamentos passam de "amigos" para "conhecidos" para "olho para sua cara mas não te cumprimento".
Mas essas "amizades" não fazem falta alguma.
Porque elas são todas iguais. E eu só consigo ser diferente.
Eponine Nunca Mais
Cheguei a achar que era uma maldição. Que por alguma razão eu era uma garota amaldiçoada.
Como se todas aquelas histórias fictícias de contos de fadas pudessem se tornar realidade.
Talvez minha imaginação fosse um pouco selvagem. Talvez eu fosse dramática demais.
Mas uma coisa era um fato na época: eu parecia ser incapaz de me interessar por caras descompromissados.
E eu sempre fui a melhor amiga. Eles realmente não me viam de outra maneira.
Conversávamos sobre tudo mas sempre pairava aquela sensação. De que eu os colocava por primeiro enquanto para eles eu era só mais uma garota. Ou mais um amigo.
Mas aí a gente vai se distanciando das pessoas e vendo que aquele sentimento que se nutria com relação a elas não era saudável. Não era algo real.
Pra ser real tem que vir dos dois lados.
As duas pessoas tem que querer aquilo.
Querer um ao outro.
Abri os olhos pra perceber que não adianta ficar esperando.
Já esperei muito na vida. Meus pais na saída da escola, amigos me chamarem pra sair, o cara olhar pra mim do jeito que via a namorada.
Chega. Não quero mais ser Eponine.
Pra falar a verdade, Marius não vale tanto a pena assim.
Já to de olho é no Enjolras.
Da prateleira de:
Ácidos
A Beleza da Tragédia Fictícia
O ser humano é um animal muito curioso.
Não gostamos de sofrer. Queremos nossa vida linda, caminhos abertos, situações fáceis.
Não gostamos de tragédias nela. Tentamos ao máximo evitar dramas.
Mortes então, nem pensar!
Mas ao contrário do que desejamos a nossa vida, acontece algo um tanto diferente com o cinema e a televisão.
Vendo assim, de fora, a tragédia é algo lindo.
A tragédia alheia é algo curioso, chamativo, maravilhoso.
Não queremos vivenciá-la, mas adoramos assisti-la. Adoramos a sensação de deliciosa tristeza que a tragédia traz a nossos corações.
E a procuramos, a dizemos "bem encenada", e choramos por pessoas que não são nem reais.
A beleza da tragédia fictícia é que ela não é real. Não existe no mundo concreto. Não machuca ninguém para valer.
Mas mesmo assim, ainda faz nosso coração doer. Nem que seja só um pouquinho.
E depois vai embora e fica só a beleza.
Máscaras
Nos comportamos diferentemente com diferentes pessoas. Não há como contestar isso.
Somos um com amigos de infância. Outro com o pessoal do trabalho. Outro com os amigos da faculdade e outro ainda com amigos que fazemos pela vida.
E um totalmente diferente com a família.
Talvez o mais verdadeiro com a família.
É como se, quanto mais conhece alguém, mais essa pessoa tem o privilégio (ou não) de conhecer-nos mais profundamente.
De saber realmente quem somos em nossa versão mais interior.
É como se usassemos várias máscaras com o formato de nosso próprio rosto. E vamos tirando-as conforme convivemos.
Não é como se quiséssemos passar aos outros o que não somos. Pois somos nós mesmos, mas em níveis diferentes. Níveis superficiais, médios ou profundos.
Não estamos fingindo. Talvez apenas ocultando algo. Que se pudermos, iremos mostrar conforme nos relacionarmos mais.
Isso não é algo ruim.
Apenas mostra como seres humanos são algo complexo. Maravilhosamente complexo.
Ser você mesmo, não importa em que nível.
Não olhar para alguém apenas pelo nível superficial que conhecemos.
Talvez seja muito mais difícil do que aceitar que nós mesmos temos camadas. E que não somos iguais com todo mundo.
Ninguém é apenas aquilo que aparenta.
Somos sempre muito, muito mais.
E isso é quase impossível de se ver.
I Thought I Had It Figured Out
Quando eu tinha cinco anos queria ser cantora. Até descobrir que a voz que eu ouço na minha cabeça quando falo não é a mesma que as outras pessoas ouvem ou que sai do microfone. Desisti do glamour da profissão.
Aos onze ia ser uma estilista famosa com modelos usando meus designs em semanas da moda. Até entender que pessoas que não sabem desenhar não se dão muito bem nesse ramo.
Dos treze aos quinze apenas respondia quando me perguntavam com um singelo "Não sei". Até que o vestibular começou a se aproximar e essa frase não entrava mais na categoria de respostas para a pergunta de "O que você vai fazer da vida?".
Então eu comecei a responder que queria ir para a área de diplomacia, porque era a única resposta mais próxima e respeitável para "viajar pelo mundo como uma cigana pós-moderna, com mais banhos, mais dentes naturais que de ouro, e uma tentativa mínima de vestir roupas que são vendidas em lojas desse século".
Até perceber que a diplomacia estava muito fora da minha realidade.
Dezessete foi a idade em que decidi que, apesar de desistir da diplomacia, eu ainda poderia viajar pelo mundo. Era fácil, apenas me tornar uma correspondente de guerra.
É, pra falar a verdade, acabou que não é tão fácil assim. Principalmente quando o vestibular para isso é tão concorrido.
Com dezoito a carreira de escritora me pareceu ser o caminho certo, e por um tempo realmente acreditei nisso. E então eu descobri que para se tornar escritor, não apenas nesse país, mas em todo mundo, é preciso muito mais do que dom, boa gramática, temas originais ou mesmo saber colocar as ideias de forma clara.
É preciso sorte, muita sorte.
Ou dinheiro, muito dinheiro.
E escrever. Escrever como se você não tivesse mais nada para fazer da vida. Escrever como se o mundo não exigisse de você um curso superior, um mestrado, um doutorado e um pós-doutorado. Como se sua mãe não fosse ligar se você se trancasse no seu quarto e nunca mais falasse com seus amigos. Como se tudo o que você tivesse que fazer fosse escrever.
Descobri que nenhuma dessas coisas condiz com a realidade.
Na verdade, qualquer coisa que pensar como profissão, em minha mente, será algo idealizado.
E é por isso que agora eu não quero ser nada.
Quando me perguntam "O que você vai fazer da vida?" apenas respondo "Não sei, não decidi.".
Assim mesmo, sem nenhuma culpa. Sem nenhum remorso.
Porque quero decidir se vou virar à esquerda ou à direita quando chegar à bifurcação.
Quero apreciar o caminho enquanto o percorro, sem me importar muito onde vai dar.
Quero viver o momento.
Mesmo que ele não seja tão perfeito quanto eu tinha planejado.
Aquele Tipo de Garota
Ela encontrou uns conhecidos na frente e se enfiou na fila junto com eles. Até aí tudo bem. Já fiz isso algumas vezes também, então quem sou eu pra falar?
Mas tinha alguma coisa sobre essa garota que despertou algo em mim.
Não eram as roupas de marca. Ou a mala de viagem da moda, que ela usava muito melhor que eu. Nem os amigos bonitos e o porte altivo, andando como se ela fosse uma modelo.
Por algum motivo inexplicável aquela garota me irritava.
Então me lembrei que a conhecia. Do colegial. Um ou dois anos mais velha.
E entendi que não era irritação. Era antipatia.
Antipatia, do contrário de empatia.
Ela nunca me fez nada pessoalmente. Ela nem sabe quem eu sou.
Mas é aquele tipo de situação de metonímia. A parte pelo todo.
Ela representa todas aquelas garotas de roupa de marca. Que eu jurava não me importar em ter.
Todas aquelas garotas que iam às festas. As que a gente comentava por não ter estado presente.
As que saiam com os caras mais velhos e bonitos. Que a gente só podia ter uma crush, porque eles nem tomavam conhecimento da nossa existência.
As que conseguiam se arrumar pra ir pra escola. Maquiagem e sapatilhas.
Não iria nem me lembrar que ela existia se não fosse a pose.
Agindo como há quatro anos atrás.
Como se ainda estivesse andando pelo corredor do Ensino Médio de uma cidadezinha insignificante.
Como se ainda fosse popular.
Como se ainda fosse aquele tipo de garota.
Eu cresci, mudei. Não sou mais aquela garota que apenas comenta sobre as festas. Eu participo delas. E se não, não ligo muito sobre o que aconteceu.
Mas por que você não? Por que?
'Cause I'm Just a Girl in the World
É incrível como algumas pequenas coisas podem de repente nos deixar um tanto chateados.
Linhas, por exemplo.
Nós, jovens, por mais "certinhos" que sejamos, gostamos de acreditar que vivemos nossa vida plenamente. Que todos os muitos (só que na verdade foram poucos) anos que gastamos para chegar até aqui foram totalmente aproveitados. Inteiramente, completamente, gastos.
Gostamos de pensar que nenhum de nossos dias foi inútil. Que tiramos uma lição de cada hora em que nossos olhos passam abertos nesse mundo. Que nossa mente está cheia de conhecimentos que um dia iremos precisar. Coisas como: o Empire State Building é o prédio mais alto de Nova York apenas por alguns metros e o nome da filha de Chris Martin e Gwyneth Paltrow é Apple.
Que tudo isso, os conhecimentos que adquirimos em nossa vida, mesmo os mais estúpidos possíveis, nos fazem únicos e especiais.
Mas não fazem. Milhares de outras pessoas aprenderam essas mesmas coisas.
7 bilhões de pessoas no mundo. Você, jovem, não é especial. Você pode ser único, mas ao mesmo tempo, não o é. Outros sabem fazer o que você faz. Outros fazem o que você faz muito melhor.
Você é só mais uma pessoa no mundo.
Nós somos só mais alguém no mundo.
Alguém que a vida inteira, todo o conhecimento adquirido, todas as memórias, todos os lugares visitados, todas as pessoas conhecidas, se resumem a cinco linhas.
Uma vida toda (mesmo que não tão grande assim) em cinco linhas.
Nasci.
Cresci.
Vivi.
Dormi.
Morri.
Mas o que eu sei? Sou só mais uma garota, afinal.
A vida acontece. Será?
Como vocês podem observar eu tenho estado ausente.
Tá bem, eu abandonei esse blog.
Não porque eu quis. Acho que abandonar algo não é uma coisa que a gente escolhe. Simplesmente acontece.
Em um dia a gente está naquela situação, e aí tudo começa a mudar. A vida começa.
Sol nasce e se põe e você se vê dizendo coisas como: "Nossa, eu já vou fazer tal idade." ou "Ah, que belezinha, tão novinho(a)." ou "Tem tanto o que ver pela frente."
Não que eu ache que já vivi demais. Pelo contrário, tenho muito o que ver e vivenciar ainda.
Mas você sabe que está envelhecendo. Você sabe que os dias estão passando.
A vida está acontecendo.
E a gente nem se dá muita conta disso.
É a mesma coisa quando a gente visita uma família que não vê a muito tempo. Você olha para os filhos e eles estão grandes, e é impossível não soltar um "Como você cresceu!".
Mas quando você faz parte dessa família você revira os olhos quando alguém diz isso. Porque pra você, tudo basicamente continua igual.
Mesmo estando diferente.
O grande problema da vida é que ela acontece. Mas a gente não a percebe acontecendo, porque estamos ocupados demais vivendo. Ou reclamando que ela passa rápido demais.
Nada mudou.
Mas se você rever suas memórias vai ver que tudo mudou.
Geração Peter Pan
![]() |
| "All children, except one, grow up." Peter and Wendy, J.M. Barrie |
Há uns dois meses atrás um dos meus seriados favoritos chegou ao fim.
Greek era um misto de tudo o que há de bom nesse mundo (as famosas dramedys que eu tanto amo <3). Os roteiristas espertalhões escolheram a melhor fase da vida para escrever sobre: a faculdade.
Depois de quatro anos no ar, a série acabou com um temporada menor, deixando muitos fãs com bico de "quero mais, mamãe!".
Uma pena não ser tão conhecida no Brasil, e até a emissora que exibia (Universal Channel) deixou de fazê-lo.
(Mas também, não se pode esperar muito da Universal... Enrolação é o forte deles!)
Um dos personagens principais, e particularmente um dos meus personagens favoritos de todos os tempos, é o tema desse post.
Cappie afirmou durante todos os anos de duração do seriado que ele ficaria o máximo de tempo possível na faculdade.
(O que deve ser mais ou menos oito anos no mundo todo, porque né...)
O negócio é: Cappie tinha medo de crescer. E medo de, ao crescer, acabar perdendo sua personalidade ou qualquer que seja que o fazia único.
Mas, como o sábio criador de Peter Pan já sabia, todas as crianças crescem. Uma hora ou outra, por bem ou por mal.
Agora, o quanto demora esse crescimento é um ponto delicado.
Vemos cada vez mais que esse tempo está sendo retardado ao máximo hoje em dia. Ninguém mais quer sair da casa dos pais.
O crescimento, ou seja, assumir responsabilidades por seus próprios erros, fazer suas próprias escolhas que alterarão sua vida toda, está sendo deixado em segundo plano.
Claro que é bom viver na sombra e água fresca, roupa limpa e comida boa. Mas há um tempo pra tudo.
Afinal, depois de alguns anos o Yakult e o Danoninho começam a ficar pequenos, não é mesmo?
"Somewhere around 25, bizarre becomes immature." (Janet, Singles)
Da prateleira de:
Ácidos
Noite Feliz
Quando eu era criança sempre ficava o ano todo esperando ansiosamente pela noite de Natal.
Todo mundo vinha em casa, e nós (as crianças) tínhamos que esperar até a meia noite, quando alguém (meu pai ou um dos primos/tios da minha mãe) tocava a campainha e deixava na porta um saco (daqueles pretos de lixo mesmo, hahaha) cheio de presentes, fingindo que era o Papai Noel.
Nós fingíamos que acreditávamos que era realmente o bom velhinho, e os adultos fingiam que acreditavam que a gente acreditava.
Para mim, o Natal sempre foi meio que uma data de hipocrisia e fingimento.
Quer dizer, essa época "desperta" o melhor das pessoas.
Mas por que só agora??
Porque não todo o tempo?
Quem foi que disse que os pobres só tem fome na ceia de Natal?
Quem disse que crianças só precisam ganhar brinquedos do Papai Noel ou de um palhaço no Dia das Crianças?
Quem foi o idiota que disse que nessa época temos que ajudar alguém?
E quem é que disse que essa é uma noite feliz??
Porque para alguns todas as noites são realmente felizes. Mas para outros nenhuma delas o é.
Jesus nasceu em um coxo de animais, no meio de um monte de (desculpe o palavreado) merda de vaca.
E depois de 33 anos ainda foi pregado numa cruz.
É, não sou eu que estou dizendo que foi realmente um noite feliz...
Mas quem pode negar, quando por todos os lados os anúncios e o glamour do Natal nos lembram frequentemente que temos de ser felizes?
Talvez, só por esse ano, só dessa vez, possa ser um noite feliz.
Se não por mim, pelo pequeno Jesus.
Da prateleira de:
Ácidos
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