A Maldição das Epifanias Noturnas

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Postado por:Maria Raquel

Três da manhã.
Era aquele momento entre o sono e a realidade em que os duendes e as fadas aparecem para decidir se vamos ter sonhos ou pesadelos. Momento em que sombras se confundem com dinossauros e roupas dentro dos armários com monstros.
Foi naquele exato momento que tive uma epifania.

Uma dessas ideias geniais, que mudaria o rumo da vida a partir de quando decidisse coloca-la em prática.
Algo tão importante que ficou gravado em algum lugar no meu cérebro.
Muito bem marcado, como uma tatuagem que se faz de impulso. Como a cicatriz que adquiri quando brincava de pega-pega aos cinco anos.

Adormeci decidida que na manhã seguinte iria tomar uma atitude.
Pegar o telefone. Mandar uma mensagem. Fazer sinal de fumaça.
Mudar o rumo da vida.

Amanheceu rápido, como todo amanhecer acontece. O céu ficou azul claro. De repente não era mais escuro. As luzes da cidade se apagaram, pessoas começaram a se levantar, e tudo foi ficando barulhento. Outro dia começava.
E com a noite se foi também minha forte decisão.

Ela ainda estava lá na minha mente, como a tatuagem e a cicatriz.
Mas não parecia tão genial assim mais. Na verdade, parecia um tanto estúpida.
Não, não estúpida, apenas nem tão epifânica.
Parecia mesmo um tanto humana demais. Simples demais.

Então deixei pra lá.

'Cause I'm Just a Girl in the World

domingo, 2 de setembro de 2012

Postado por:Maria Raquel

É incrível como algumas pequenas coisas podem de repente nos deixar um tanto chateados.

Linhas, por exemplo.

Nós, jovens, por mais "certinhos" que sejamos, gostamos de acreditar que vivemos nossa vida plenamente. Que todos os muitos (só que na verdade foram poucos) anos que gastamos para chegar até aqui foram totalmente aproveitados. Inteiramente, completamente, gastos.
Gostamos de pensar que nenhum de nossos dias foi inútil. Que tiramos uma lição de cada hora em que nossos olhos passam abertos nesse mundo. Que nossa mente está cheia de conhecimentos que um dia iremos precisar. Coisas como: o Empire State Building é o prédio mais alto de Nova York apenas por alguns metros e o nome da filha de Chris Martin e Gwyneth Paltrow é Apple.
Que tudo isso, os conhecimentos que adquirimos em nossa vida, mesmo os mais estúpidos possíveis, nos fazem únicos e especiais.

Mas não fazem. Milhares de outras pessoas aprenderam essas mesmas coisas.
7 bilhões de pessoas no mundo. Você, jovem, não é especial. Você pode ser único, mas ao mesmo tempo, não o é. Outros sabem fazer o que você faz. Outros fazem o que você faz muito melhor.
Você é só mais uma pessoa no mundo.
Nós somos só mais alguém no mundo.

Alguém que a vida inteira, todo o conhecimento adquirido, todas as memórias, todos os lugares visitados, todas as pessoas conhecidas, se resumem a cinco linhas.

Uma vida toda (mesmo que não tão grande assim) em cinco linhas.

Nasci.
Cresci.
Vivi.
Dormi.
Morri.

Mas o que eu sei? Sou só mais uma garota, afinal.


P.S.: Estou mandando o Neruda, que li sim, e odiei.

sábado, 25 de agosto de 2012

Postado por:Maria Raquel

"Me devolva o Neruda (que você nem leu)". É com essa frase que Mario Prata nomeia sua crônica de despedida da coluna que escrevia em um jornal. Li pela primeira vez na pré-adolescência,  provavelmente em um livro didático ou numa apostila de escola (você pode ler aqui). Não lembrava nem sobre o que era, mas a frase ficou grudada na memória.
Ficou tanto que agora sempre que falam em Neruda eu lembro dela.
Outro dia, no Twitter vi uma menção e automaticamente me veio a frase. Mesma coisa durante uma aula, em que por alguma razão Trocando em Miúdos foi mencionada.
O curioso é que, embora seja inspirada na canção de Chico Buarque, o verso na música é na verdade "Devolva o Neruda que você me tomou/E nunca leu".
Prefiro mesmo a do Prata.

E como adoro o "Me devolva o Neruda, que você nem leu"!. Rola tão bem na língua da gente.
Uma frase tão pequena, mas com tanto significado. Faz imaginar porque alguém emprestaria um livro (e na versão do Chico, tomaria, o que já remete a roubar mesmo) e não leria.
Será que foi uma daquelas coisas que acontecem quando a gente começa a se interessar por alguém?
Quando queremos ter algo em comum com a pessoa, e o outro gosta tanto de algo, que fazemos uma forcinha pra gostar também?
Será que um gostava tanto de Neruda que o outro teve que fingir que gostava?

E aí, quando se separaram, um deles descobre que o outro estava pouco se lixando pra poesia. E joga isso na cara, como uma das causas da separação.
"Você nem gostava mesmo de Neruda! Tanto que não tocou no livro!!"
Não sei se seria algo gritável durante uma discussão. Mas no fim, eles estavam mesmo trocando em miúdos. 

Quando o coração da gente está quebrado, qualquer coisa serve pra apunhalar o dos outros.
Mas o que dói mesmo é saber que a outra pessoa gostou de você a ponto de fingir ter algo tão importante assim em comum.
E que talvez você tenha feito o mesmo.




Eu me mordo de ciúmes. (But not really)

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Postado por:Maria Raquel

É assim que a história começa: há uma garota. E um garoto.
Ou então um garoto. E uma garota.
Ou ainda uma garota e outra garota.
Ou um garoto e outro garoto.
Mas o que todas tem em comum, pelo menos pra essa questão específica, é que existe outra garota ou outro garoto envolvidos.

Porque né, a vida é uma bitch.
(Porque se fosse uma slat, seria fácil.)

Nesses idos de tempos modernos saber tudo o que o outro faz já nem é esquisito, e as pessoas não tem nem mais vergonha de dizer "Stalkeio sim, e daí" sem soar psicótico. Acho que querer saber do outro é uma coisa que sempre aconteceu, mas hoje em dia as coisas estão ficando mais escancaradas. Mais abertas.
Todo mundo sabe o que todo mundo comeu no almoço.
Todo mundo sabe o que todo mundo tem.

A curiosidade, além de matar o gato, nos faz ter atitudes que não queríamos. Mas não só ela.

É esse louco instinto humano de possessão. Minha casa, meu carro, meu cachorro, meus amigos, meu marido, minha esposa.
Como é que se tem alguém?
Como é que se torna dono daquela pessoa a ponto de intitulá-la "sua"?

Porque vocês se conhecem, conversam, e um dia aquele sentimento simplesmente aparece. Você, mesmo sem querer, acaba sentindo que a pessoa é sua.
Mas o problema é que ela não é.
Ela é livre pra falar com quem quiser. Sobre o que quiser. E você não pode fazer nada sobre isso, a não ser aguentar. "Se morder" com isso.
Porque se você morder a outra pessoa, ela vai reclamar. E talvez até se afastar.

Guardar o ciúmes pra você, mesmo que isso doa. Porque não é algo racional.

Mas ter um outro também não é.

A vida acontece. Será?

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Postado por:Maria Raquel

Como vocês podem observar eu tenho estado ausente.
Tá bem, eu abandonei esse blog.
Não porque eu quis. Acho que abandonar algo não é uma coisa que a gente escolhe. Simplesmente acontece.
Em um dia a gente está naquela situação, e aí tudo começa a mudar. A vida começa.
Sol nasce e se põe e você se vê dizendo coisas como: "Nossa, eu já vou fazer tal idade." ou "Ah, que belezinha, tão novinho(a)." ou "Tem tanto o que ver pela frente."
Não que eu ache que já vivi demais. Pelo contrário, tenho muito o que ver e vivenciar ainda.
Mas você sabe que está envelhecendo. Você sabe que os dias estão passando.
A vida está acontecendo.

E a gente nem se dá muita conta disso.

É a mesma coisa quando a gente visita uma família que não vê a muito tempo. Você olha para os filhos e eles estão grandes, e é impossível não soltar um "Como você cresceu!".
Mas quando você faz parte dessa família você revira os olhos quando alguém diz isso. Porque pra você, tudo basicamente continua igual.
Mesmo estando diferente.

O grande problema da vida é que ela acontece. Mas a gente não a percebe acontecendo, porque estamos ocupados demais vivendo. Ou reclamando que ela passa rápido demais.

Nada mudou.
Mas se você rever suas memórias vai ver que tudo mudou.

Geração Peter Pan

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Postado por:Maria Raquel
"All children, except one, grow up."
Peter and Wendy, J.M. Barrie

Há uns dois meses atrás um dos meus seriados favoritos chegou ao fim.
Greek era um misto de tudo o que há de bom nesse mundo (as famosas dramedys que eu tanto amo <3). Os roteiristas espertalhões escolheram a melhor fase da vida para escrever sobre: a faculdade.
Depois de quatro anos no ar, a série acabou com um temporada menor, deixando muitos fãs com bico de "quero mais, mamãe!".
Uma pena não ser tão conhecida no Brasil, e até a emissora que exibia (Universal Channel) deixou de fazê-lo.
(Mas também, não se pode esperar muito da Universal... Enrolação é o forte deles!)
Um dos personagens principais, e particularmente um dos meus personagens favoritos de todos os tempos, é o tema desse post.

Cappie afirmou durante todos os anos de duração do seriado que ele ficaria o máximo de tempo possível na faculdade.
(O que deve ser mais ou menos oito anos no mundo todo, porque né...)
O negócio é: Cappie tinha medo de crescer. E medo de, ao crescer, acabar perdendo sua personalidade ou qualquer que seja que o fazia único.

Mas, como o sábio criador de Peter Pan já sabia, todas as crianças crescem. Uma hora ou outra, por bem ou por mal.
Agora, o quanto demora esse crescimento é um ponto delicado.
Vemos cada vez mais que esse tempo está sendo retardado ao máximo hoje em dia. Ninguém mais quer sair da casa dos pais.
O crescimento, ou seja, assumir responsabilidades por seus próprios erros, fazer suas próprias escolhas que alterarão sua vida toda, está sendo deixado em segundo plano.

Claro que é bom viver na sombra e água fresca, roupa limpa e comida boa. Mas há um tempo pra tudo.
Afinal, depois de alguns anos o Yakult e o Danoninho começam a ficar pequenos, não é mesmo?

"Somewhere around 25, bizarre becomes immature." (Janet, Singles)

Noite Feliz

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Postado por:Maria Raquel


Quando eu era criança sempre ficava o ano todo esperando ansiosamente pela noite de Natal.
Todo mundo vinha em casa, e nós (as crianças) tínhamos que esperar até a meia noite, quando alguém (meu pai ou um dos primos/tios da minha mãe) tocava a campainha e deixava na porta um saco (daqueles pretos de lixo mesmo, hahaha) cheio de presentes, fingindo que era o Papai Noel.
Nós fingíamos que acreditávamos que era realmente o bom velhinho, e os adultos fingiam que acreditavam que a gente acreditava.

Para mim, o Natal sempre foi meio que uma data de hipocrisia e fingimento.
Quer dizer, essa época "desperta" o melhor das pessoas.
Mas por que só agora??
Porque não todo o tempo?

Quem foi que disse que os pobres só tem fome na ceia de Natal?
Quem disse que crianças só precisam ganhar brinquedos do Papai Noel ou de um palhaço no Dia das Crianças?
Quem foi o idiota que disse que nessa época temos que ajudar alguém?

E quem é que disse que essa é uma noite feliz??

Porque para alguns todas as noites são realmente felizes. Mas para outros nenhuma delas o é.

Jesus nasceu em um coxo de animais, no meio de um monte de (desculpe o palavreado) merda de vaca.
E depois de 33 anos ainda foi pregado numa cruz.

É, não sou eu que estou dizendo que foi realmente um noite feliz...
Mas quem pode negar, quando por todos os lados os anúncios e o glamour do Natal nos lembram frequentemente que temos de ser felizes?

Talvez, só por esse ano, só dessa vez, possa ser um noite feliz.
Se não por mim, pelo pequeno Jesus.

 

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