Conversa de Metrô

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Postado por:Maria Raquel

"...Mas você não sabe o que ele me falou..." "...Três mil, acredita! Era isso que ele queria." "Mas e aí, vai pagar mano?" "Pior que não sei cara, porque..." "Próxima estação ... desembarque pelo lado ... do trem" "Com licença, pode me informar se é nessa estação..." "...Mas cara, ela é muito linda né?..." "...E quando é que vocês casam? Porque, sabe amiga, eu tenho essa conhecida que..."

Frases no vento. Pequenas palavras sem significado. Para qualquer outro. Talvez até para si mesmo em algum momento no futuro.
Ou com muito significado.

Conversas perdidas na pressa do metrô. Palavras ditas entre o abrir e o fechar rápido das portas.
Cuidado com as portas automáticas. E com as conversas automáticas.

Uma ou outra vai com o vento forte provocado pela chegada do trem. Outras ficam no vão entre a plataforma e o vagão. E algumas nos acompanham até a escada rolante. Até as catracas. Até a saída. Até nosso destino.
Ficam em nosso cérebro, grudadas, como a coisa em que pisamos ao fazer a baldeação.

E ainda aquelas impacientes nas catracas, com pés nervosos, olhos vidrados na saída da escada rolante e a todo momento se dirigindo a relógios. O tempo é algo precioso no metrô. E comumente é matado com conversas rápidas e desatenciosas.

Outras se cruzam como as linhas dos trens. E outras queríamos que existem, mas estão ali, caladas.
Palavras caladas em um lugar cheio de conversa.

Algumas são duras. Muito duras. Dirigidas a estranhos.
E outras, também dirigidas a desconhecidos, são doces e pacienciosas.

O metrô é assim.

Rápido, como suas conversas. Indo e vindo, como as pessoas.
Sempre andando para frente, como a vida.

Ser Feliz

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Postado por:Maria Raquel

Nunca entendi muito bem porque nas novelas a vilã sempre tem que destruir a felicidade da mocinha para ser feliz.
Por que ela não consegue simplesmente ser feliz por si mesma? Que se dane a mocinha, por que não procurar a felicidade em outra coisa?

Acho que penso assim porque nunca precisei de muito para ser feliz.
A felicidade sempre foi algo natural a mim. Algo que não se precisa procurar muito para encontrar. Às vezes não se precisa procurar de forma alguma.
Parece até que ela encontra a gente, no momento que a gente menos espera. Quando a gente nem está pensando muito sobre estar feliz ou estar triste.
É um momento em que nossa mente está longe, você percebe a situação a sua volta, sorri e pensa "nossa, acho que isso é o que chamam de felicidade".

Como um dia morno de verão, no banco de trás do carro, com seus pais conversando sobre alguma besteira sem importância, e a paisagem verde da sua terra natal, com campos e mais campos, passando rápido pela sua vista, uma estrada inteira pela frente.
Ou então quando você se senta à mesa da casa da sua avó e come aquele bolo de fubá que acabou de sair do forno, enquanto ela reclama do quanto você está magro e insiste em perguntar porque nunca vai vê-la, mesmo você tendo a visto na semana passada.
Quando sua barriga dói de tanto rir de algo que um de seus amigos falou. Algo provavelmente estúpido, que outras pessoas não achariam a mínima graça, mas que por anos vocês irão relembrar e rir com a mesma intensidade.
Ou quando aquela música que dá vontade de dançar de repente começa a tocar. E sem se importar com mais nada você simplesmente esquece de tudo e começa a dançar.
Quando alguém que você não conhece está lendo seu livro favorito, e você solta um sorriso inevitável.
Uma refeição em família, em que todo mundo fala ao mesmo tempo e você não consegue distinguir nenhuma conversa.

Quando você vê seu nome na lista de aprovados.
A risada de um bebê. Ainda mais se esse bebê estiver sorrindo para você.

Aquela manhã chuvosa em que o despertador toca, você começa a se levantar e lembra que é feriado.

Não preciso ter experienciado a tristeza pra saber. Sou feliz por essas pequenas coisas.
E outras. Muitas outras.
A vida é boa.



A Beleza da Madrugada

domingo, 16 de dezembro de 2012

Postado por:Maria Raquel

São cinco horas da manhã.
Em algum lugar da cidade um rádio-relógio toca insistentemente e seu dono aperta o botão da soneca, já sabendo que irá se atrasar para o trabalho naquele dia. Num quintal grande, um desses poucos que ainda resta no meio da selva de concreto, um galo canta adiantado. Não amanheceu ainda. Mas parece que não é noite mais.
Uma moto passa quieta pela rua. O mais quieta que uma moto pode ser. Seu motorista ignora o céu escuro. Mas o barulho não é ignorado por mim.

Ouço o som da madrugada.
Quieto. Barulhento.

A maioria das pessoas dorme um sono profundo, prontas para acordar para outro dia de afazeres.
E eu penso. Penso sobre a vida. Sobre a minha vida e a dos outros. Penso sobre o sentido de estarmos todos aqui.
Penso sobre a morte. Esse evento inevitável a todos nós. Mas nunca penso sobre ela de forma triste. Vem como um pensamento natural. A morte sempre foi natural a mim. Como estar com fome. Uma necessidade humana. Um evento humano.

Tenho saudades. Sinto saudades de algo. Não sei exatamente do quê.
Parece não ser bem saudades. Talvez seja mais uma nostalgia.
Nostalgia do que foi, nostalgia do que não foi mas poderia ter sido.
Nostalgia do que será e nostalgia do que nunca vai ser.

Continuo pensando. Em pessoas. Que estão presentes em minha vida, que já se foram. Pessoas que não falo mais, e outras que permaneceram durante anos.

Penso em quanto a madrugada é linda. Em quanto longa é. Mas o quão rápido ela passa. Leva minhas perguntas sem responder nenhuma delas. Leva meus sentimentos sem apaziguar nenhum. Sem se importar com o dia que tenho pela frente.
Vazia, cheia de significado.

Perguntas Retóricas Tem Resposta?

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Postado por:Maria Raquel

A vida é cheia de perguntas. Acho isso um tanto assustador, já que não sei responder a maioria delas.
Sempre fui o tipo que toma decisões rápido, que responde perguntas sem pestanejar. Mesmo que algumas vezes essas respostas tenham sido "decido mais tarde" ou "quando chegar a hora, resolvo".
Aquela clássica receita proteladora.

Já meu jeito de lidar com problemas foi sempre ignorar até o ponto em que ele estivesse tão perto que poderia ser um cão raivoso me encarando. E então o resolveria da forma mais rápida possível, sem nenhuma bagunça e nenhuma gota de sangue espalhada pelo carpete.

Mas algumas questões acabam se transformando em problemas quando se fica mais velho. Problemas sem solução rápida. Talvez sem solução alguma.

Escolher entre romper com quem você sempre admirou, quem você tem como herói, ou viver a vida do jeito que você sempre sonhou? Da forma como sempre quis, com seus princípios, suas regras, sua forma de ver o mundo?

A grande questão que rege a vida, o Universo e tudo o mais, infelizmente não pode ser respondida com um número. Parece até um pergunta retórica. Algo filosófico feito para nos deixar acordados a noite, olhando para o teto do quarto, tentando encontrar uma resposta que nunca será alcançada:
Fingir ser algo que não é, engolir coisas em que não acredita para não decepcionar quem importa mais, ou seguir o que todos pregam e ser você mesmo?

Realmente gostaria dessa resposta.
Existe um caminho mais fácil? Ou é assim mesmo?
Perder algo não importando qual decisão tome?



Não Sou o Que Queria Ser

sábado, 10 de novembro de 2012

Postado por:Maria Raquel

Quando era criança sempre pensava como seria quando crescesse. Provavelmente alguém que usaria roupas sociais o dia todo, uma dessas pessoas que parecem importantes. Esse tipo que passa na rua falando no celular, parecendo sempre atrasado para algo. Que é requisitado a estar em lugares, e que a presença é tão importante que se não está, a coisa não acontece.

Não que já seja hora de ser essa pessoa. Não que eu ainda não possa sê-la.
Mas não sou também a pessoa que eu queria ser quando chegasse à idade que tenho.
Na verdade, sou bem o oposto. Nada do que eu imagina ser.
Tudo que pensei que poderia ter conquistado, foi alterado para algo que realmente conseguiria alcançar.

A meta que imaginava quando criança não foi alcançada, mas é meio engraçado. Não é como se me sentisse mal comigo mesma e queira mudar quem eu sou.
É engraçado que mesmo não sendo quem eu queria ser, eu estou no caminho de me tornar quem eu quero ser.
Que eu sou quem exatamente eu gosto de ser.

É engraçado como nossa perspectiva muda com o tempo.
O quanto nosso padrões se adaptam à realidade que nos cerca.
E que podemos ser felizes.

Não sendo o que queríamos ser ou pensávamos que seríamos, mas sendo o que queremos ser agora.



To Be Beautiful

domingo, 28 de outubro de 2012

Postado por:Maria Raquel

Esse não é um texto de pena. Nunca fui aquele tipo de pessoa que fala que é feio para os outros responderem "Imagina querida, você é linda!". Eu nunca me achei particularmente feia pra falar a verdade. Não bonita, mas não feia também.

Mas durante dezessete eu fui levada a acreditar que ninguém me achava bonita. A não ser a minha mãe, mas a mãe da gente não conta, porque elas acham os filhos bonitos. Por mais cara de joelho que eles tenham quando bebês.

Talvez porque eu andasse com garotas muito mais bonitas do que eu. Ou ainda porque meu cabelo me deixasse com cara de criança.
O fato é, até os dezessete nenhum garoto me queria.
Mais de uma vez eu ouvi o "prefiro sua amiga".

Só que aí a gente cresce, muda de ambiente, se arruma e percebe que não é você que não é bonita. São os outros que não viam sua beleza.
Que tem dias que qualquer um é feio. Mas vai ter aquele dia especial que você vai se sentir uma super modelo.
Um dia em que alguém vai chegar e te falar que você é linda.

Só que até lá, você vai ter que aguentar caras te olhando com jeito de desprezo.
Difícil mesmo é se achar bonita quando ninguém mais acha.

Mas this too shall pass.


I Thought I Had It Figured Out

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Postado por:Maria Raquel

Quando eu tinha cinco anos queria ser cantora. Até descobrir que a voz que eu ouço na minha cabeça quando falo não é a mesma que as outras pessoas ouvem ou que sai do microfone. Desisti do glamour da profissão.

Aos onze ia ser uma estilista famosa com modelos usando meus designs em semanas da moda. Até entender que pessoas que não sabem desenhar não se dão muito bem nesse ramo.

Dos treze aos quinze apenas respondia quando me perguntavam com um singelo "Não sei". Até que o vestibular começou a se aproximar e essa frase não entrava mais na categoria de respostas para a pergunta de "O que você vai fazer da vida?".

Então eu comecei a responder que queria ir para a área de diplomacia, porque era a única resposta mais próxima e respeitável para "viajar pelo mundo como uma cigana pós-moderna, com mais banhos, mais dentes naturais que de ouro, e uma tentativa mínima de vestir roupas que são vendidas em lojas desse século".
Até perceber que a diplomacia estava muito fora da minha realidade.

Dezessete foi a idade em que decidi que, apesar de desistir da diplomacia, eu ainda poderia viajar pelo mundo. Era fácil, apenas me tornar uma correspondente de guerra.
É, pra falar a verdade, acabou que não é tão fácil assim. Principalmente quando o vestibular para isso é tão concorrido.

Com dezoito a carreira de escritora me pareceu ser o caminho certo, e por um tempo realmente acreditei nisso. E então eu descobri que para se tornar escritor, não apenas nesse país, mas em todo mundo, é preciso muito mais do que dom, boa gramática, temas originais ou mesmo saber colocar as ideias de forma clara.
É preciso sorte, muita sorte.
Ou dinheiro, muito dinheiro.
E escrever. Escrever como se você não tivesse mais nada para fazer da vida. Escrever como se o mundo não exigisse de você um curso superior, um mestrado, um doutorado e um pós-doutorado. Como se sua mãe não fosse ligar se você se trancasse no seu quarto e nunca mais falasse com seus amigos. Como se tudo o que você tivesse que fazer fosse escrever.

Descobri que nenhuma dessas coisas condiz com a realidade.
Na verdade, qualquer coisa que pensar como profissão, em minha mente, será algo idealizado.

E é por isso que agora eu não quero ser nada.
Quando me perguntam "O que você vai fazer da vida?" apenas respondo "Não sei, não decidi.".
Assim mesmo, sem nenhuma culpa. Sem nenhum remorso.

Porque quero decidir se vou virar à esquerda ou à direita quando chegar à bifurcação.
Quero apreciar o caminho enquanto o percorro, sem me importar muito onde vai dar.
Quero viver o momento.

Mesmo que ele não seja tão perfeito quanto eu tinha planejado.



 

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