I Thought I Had It Figured Out

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Postado por:Maria Raquel Silva

Quando eu tinha cinco anos queria ser cantora. Até descobrir que a voz que eu ouço na minha cabeça quando falo não é a mesma que as outras pessoas ouvem ou que sai do microfone. Desisti do glamour da profissão.

Aos onze ia ser uma estilista famosa com modelos usando meus designs em semanas da moda. Até entender que pessoas que não sabem desenhar não se dão muito bem nesse ramo.

Dos treze aos quinze apenas respondia quando me perguntavam com um singelo "Não sei". Até que o vestibular começou a se aproximar e essa frase não entrava mais na categoria de respostas para a pergunta de "O que você vai fazer da vida?".

Então eu comecei a responder que queria ir para a área de diplomacia, porque era a única resposta mais próxima e respeitável para "viajar pelo mundo como uma cigana pós-moderna, com mais banhos, mais dentes naturais que de ouro, e uma tentativa mínima de vestir roupas que são vendidas em lojas desse século".
Até perceber que a diplomacia estava muito fora da minha realidade.

Dezessete foi a idade em que decidi que, apesar de desistir da diplomacia, eu ainda poderia viajar pelo mundo. Era fácil, apenas me tornar uma correspondente de guerra.
É, pra falar a verdade, acabou que não é tão fácil assim. Principalmente quando o vestibular para isso é tão concorrido.

Com dezoito a carreira de escritora me pareceu ser o caminho certo, e por um tempo realmente acreditei nisso. E então eu descobri que para se tornar escritor, não apenas nesse país, mas em todo mundo, é preciso muito mais do que dom, boa gramática, temas originais ou mesmo saber colocar as ideias de forma clara.
É preciso sorte, muita sorte.
Ou dinheiro, muito dinheiro.
E escrever. Escrever como se você não tivesse mais nada para fazer da vida. Escrever como se o mundo não exigisse de você um curso superior, um mestrado, um doutorado e um pós-doutorado. Como se sua mãe não fosse ligar se você se trancasse no seu quarto e nunca mais falasse com seus amigos. Como se tudo o que você tivesse que fazer fosse escrever.

Descobri que nenhuma dessas coisas condiz com a realidade.
Na verdade, qualquer coisa que pensar como profissão, em minha mente, será algo idealizado.

E é por isso que agora eu não quero ser nada.
Quando me perguntam "O que você vai fazer da vida?" apenas respondo "Não sei, não decidi.".
Assim mesmo, sem nenhuma culpa. Sem nenhum remorso.

Porque quero decidir se vou virar à esquerda ou à direita quando chegar à bifurcação.
Quero apreciar o caminho enquanto o percorro, sem me importar muito onde vai dar.
Quero viver o momento.

Mesmo que ele não seja tão perfeito quanto eu tinha planejado.



Aquele Tipo de Garota

sábado, 22 de setembro de 2012

Postado por:Maria Raquel Silva

Ela encontrou uns conhecidos na frente e se enfiou na fila junto com eles. Até aí tudo bem. Já fiz isso algumas vezes também, então quem sou eu pra falar?
Mas tinha alguma coisa sobre essa garota que despertou algo em mim.
Não eram as roupas de marca. Ou a mala de viagem da moda, que ela usava muito melhor que eu. Nem os amigos bonitos e o porte altivo, andando como se ela fosse uma modelo.

Por algum motivo inexplicável aquela garota me irritava.
Então me lembrei que a conhecia. Do colegial. Um ou dois anos mais velha.
E entendi que não era irritação. Era antipatia.
Antipatia, do contrário de empatia.

Ela nunca me fez nada pessoalmente. Ela nem sabe quem eu sou.
Mas é aquele tipo de situação de metonímia. A parte pelo todo.
Ela representa todas aquelas garotas de roupa de marca. Que eu jurava não me importar em ter.
Todas aquelas garotas que iam às festas. As que a gente comentava por não ter estado presente.
As que saiam com os caras mais velhos e bonitos. Que a gente só podia ter uma crush, porque eles nem tomavam conhecimento da nossa existência.
As que conseguiam se arrumar pra ir pra escola. Maquiagem e sapatilhas.

Não iria nem me lembrar que ela existia se não fosse a pose.
Agindo como há quatro anos atrás.
Como se ainda estivesse andando pelo corredor do Ensino Médio de uma cidadezinha insignificante.
Como se ainda fosse popular.
Como se ainda fosse aquele tipo de garota.

Eu cresci, mudei. Não sou mais aquela garota que apenas comenta sobre as festas. Eu participo delas. E se não, não ligo muito sobre o que aconteceu.
Mas por que você não? Por que?


A Maldição das Epifanias Noturnas

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Postado por:Maria Raquel Silva

Três da manhã.
Era aquele momento entre o sono e a realidade em que os duendes e as fadas aparecem para decidir se vamos ter sonhos ou pesadelos. Momento em que sombras se confundem com dinossauros e roupas dentro dos armários com monstros.
Foi naquele exato momento que tive uma epifania.

Uma dessas ideias geniais, que mudaria o rumo da vida a partir de quando decidisse coloca-la em prática.
Algo tão importante que ficou gravado em algum lugar no meu cérebro.
Muito bem marcado, como uma tatuagem que se faz de impulso. Como a cicatriz que adquiri quando brincava de pega-pega aos cinco anos.

Adormeci decidida que na manhã seguinte iria tomar uma atitude.
Pegar o telefone. Mandar uma mensagem. Fazer sinal de fumaça.
Mudar o rumo da vida.

Amanheceu rápido, como todo amanhecer acontece. O céu ficou azul claro. De repente não era mais escuro. As luzes da cidade se apagaram, pessoas começaram a se levantar, e tudo foi ficando barulhento. Outro dia começava.
E com a noite se foi também minha forte decisão.

Ela ainda estava lá na minha mente, como a tatuagem e a cicatriz.
Mas não parecia tão genial assim mais. Na verdade, parecia um tanto estúpida.
Não, não estúpida, apenas nem tão epifânica.
Parecia mesmo um tanto humana demais. Simples demais.

Então deixei pra lá.

'Cause I'm Just a Girl in the World

domingo, 2 de setembro de 2012

Postado por:Maria Raquel Silva

É incrível como algumas pequenas coisas podem de repente nos deixar um tanto chateados.

Linhas, por exemplo.

Nós, jovens, por mais "certinhos" que sejamos, gostamos de acreditar que vivemos nossa vida plenamente. Que todos os muitos (só que na verdade foram poucos) anos que gastamos para chegar até aqui foram totalmente aproveitados. Inteiramente, completamente, gastos.
Gostamos de pensar que nenhum de nossos dias foi inútil. Que tiramos uma lição de cada hora em que nossos olhos passam abertos nesse mundo. Que nossa mente está cheia de conhecimentos que um dia iremos precisar. Coisas como: o Empire State Building é o prédio mais alto de Nova York apenas por alguns metros e o nome da filha de Chris Martin e Gwyneth Paltrow é Apple.
Que tudo isso, os conhecimentos que adquirimos em nossa vida, mesmo os mais estúpidos possíveis, nos fazem únicos e especiais.

Mas não fazem. Milhares de outras pessoas aprenderam essas mesmas coisas.
7 bilhões de pessoas no mundo. Você, jovem, não é especial. Você pode ser único, mas ao mesmo tempo, não o é. Outros sabem fazer o que você faz. Outros fazem o que você faz muito melhor.
Você é só mais uma pessoa no mundo.
Nós somos só mais alguém no mundo.

Alguém que a vida inteira, todo o conhecimento adquirido, todas as memórias, todos os lugares visitados, todas as pessoas conhecidas, se resumem a cinco linhas.

Uma vida toda (mesmo que não tão grande assim) em cinco linhas.

Nasci.
Cresci.
Vivi.
Dormi.
Morri.

Mas o que eu sei? Sou só mais uma garota, afinal.


 

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