Quantos Anos Você Tem?

sábado, 24 de agosto de 2013

Postado por:Maria Raquel Silva

Quantos anos você tem?
Ou melhor, quanto anos você se sente?
Porque idade não importa muito na verdade. O que importa é com qual idade nos sentimos.

17.
Responderia alguns meses atrás. Naquela época me sentia com dezessete.
Parece que faz anos, décadas.
Não me sinto mais com essa idade.
Por que? Não sei. A gente muda. Cresce. Amadurece.
E não se sente mais com dezessete.

Se sente com trinta. Com o peso das responsabilidades, com a conversa do aluguel, o tempo perdido no trânsito, aquela exposição de artes daquele amigo do amigo.
Não mais as festas, não mais as baladas, não mais a vodka.
Os jantares, os encontros com amigos, os barzinhos, o vinho (porque gente mais velha toma vinho).

A turma fica menor, as saídas mais esparsas.
A vontade não é a mesma. O cansaço é maior.
O peso das responsabilidades.

Na nossa geração, os trinta e poucos estão se tornando os vinte e poucos.
Todo mundo se acomodando. Casando, namorando. juntando.
E quem não se acomoda se vê empurrado a se virar do jeito que está.
A se acomodar também.

Quantos anos você tem?
Quanto eu tenho já nem sei.
Mas me sinto com trinta e poucos.

Banzo

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Postado por:Maria Raquel Silva

Tristeza profunda.
Os escravos negros africanos tinham uma expressão para esse tipo de tristeza: banzo.
Anos mais tarde o banzo foi dito por especialistas como uma espécie de depressão.
Porém, ainda sim, o banzo continua sendo uma tristeza profunda.

O escravo não queria mais comer, não tinha forças para trabalhar, só conseguia pensar em sua terra natal e em tempos em que havia sido feliz.
A escravidão foi teoricamente banida em 1888.
O banzo, sendo um sentimento, não pôde ser banido com ela.

A depressão é o mal do século XXI. Um mal característico de classes mais privilegiadas.
Classes que não querem ser associadas à escravidão e por isso chamam banzo de depressão.
Mas é banzo.

Aquele gosto amargo na boca. Um nó no começo da garganta.
A vontade de gritar. A sensação de estar andando mas não sair do lugar.
A vida não estar evoluindo.
A saudade de algo que não podemos ter mais.
Sentimento de impotência.
Banzo.


Solidão

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Postado por:Maria Raquel Silva

Ultimamente tenho sentido a vida um tanto vazia.
Um tanto isolada.

"Nenhum homem é uma ilha", dizia John Donne.
Bom, eu digo: todo homem é uma ilha.
Talvez ligada a outras ilhas por um balneário. Um emprego, amizades, um lugar em uma sala de aula.

Porém, continuamos sendo ilhas.
Solitárias ilhas se movendo por um oceano tortuoso chamado vida.
Às vezes a gente tem uma oportunidade de esbarrar em outras ilhas. Algumas são bem parecidas com a gente, se não pela vista, talvez pelo interior.

Só que na maioria das vezes a ilha está por si mesma.
Sem continente. Sem outras ilhas.
Apenas o céu e o mar.

E mesmo trombando em milhões de ilhas a todo tempo, não é como se duas ilhas pudessem se tornar uma.
Dois corpos não ocupam o mesmo espaço.
Um arquipélago é apenas um amontoado de ilhas, não um continente.

Sendo assim, uma grande cidade não é um continente. É apenas muitas ilhas juntas, trombando uma nas outras.
Se distanciando uma das outras.
Sendo ilhas.
Solitárias ilhas.

E não é São Paulo a cidade da solidão?



Dor de Morte

domingo, 4 de agosto de 2013

Postado por:Maria Raquel Silva

Essa dor que você sente. É de morte.
Sei que não quer ouvir isso. Preferia que dissesse que está tudo bem. Que a dor vai passar e viverá de novo como antes.
Mas não mentirei para você. Te mentiram a vida inteira.
Pelo menos na morte, te direi a verdade.

Vai morrer. Mas todos nós iremos, não?
Sim, mas a certeza de sua morte é maior.
Sei que parece estranho, mas sinto sua hora se aproximando. Deve ser por causa da dor.
Você tem se queixado cada vez mais da dor. A dor é comissária da morte.

Logo você, que fugiu a vida toda desse momento. Se iludiu tanto, fez os outros te iludirem.
Não queria a morte perto. Não queria nem mesmo uma pequena referência a ela.
Ironia é o que chamariam a isso.

Quem mais foge da morte é quem mais sofre com ela.

Essa dor que sente é de morte.
Está se encolhendo em você, se transformando em semente. Diminuindo cada vez mais.
É preparação? Para que a morte leve o menos possível de você?

Essa dor que você sente, é de morte.
Quero que você morra logo.
Pra dor passar.

 

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