Saudade

domingo, 31 de março de 2013

Postado por:Maria Raquel Silva

Dizem que saudade é a sétima palavra mais difícil de se traduzir de todas as línguas do mundo. Dizem também que o alemão tem uma expressão equivalente, mas dizem que não é bem equivalente.
Dizem que saudade é um sentimento português. E que só o povo português consegue entendê-lo por completo.
A saudade portuguesa é algo triste, melancólico.
Algo que não se encaixa muito em nossa terra tropical.

O povo brasileiro parece ter sua própria saudade. Algo diferente do "sentir falta", algo diferente da nostalgia, e algo também diferente da saudade portuguesa, que faz lembrar tanto o mar gelado para eles e os tempos de glória de um império que quase dominou o mundo todo.

Nossa saudade parece diferente. A gente usa a palavra a torto e a direito, mas é um sentimento complicado de explicar. Saudade é saudade.
Neruda dizia que "Saudade é amar um passado que ainda não passou, é recusar um presente que nos machuca, é não ver o futuro que nos convida...". Só que não é isso. Creio que ele estava um pouco equivocado. Mas, afinal, o que Neruda sabia sobre saudade? Era chileno...

Definir saudade é impossível. Para chilenos, para alemães. Mesmo para brasileiros e portugueses.
Porque saudade a gente sente e não fala.
Saudade é sentimento e não palavra.

É querer algo de volta, sabendo que nunca mais terá. Saber que a situação ficou no passado, mas querer revisitá-la. Nem que seja por um pequeno instante.
Saudade é ilusão de que o que se foi pode ser de novo. Ilusão porque sabemos que não pode. Que não volta.

Saudade anda de mãos dadas com o tempo. Como ele, ela vêm e vai embora.
E deixa na gente uma tristeza gostosa. Uma tristeza alegre.
Tristeza que, mesmo sabendo que aquilo não voltará, vivemos bem. Vivemos felizes.
Nem que seja naquele pequeno momento de saudade.

Cidadezinha Qualquer

domingo, 17 de março de 2013

Postado por:Maria Raquel Silva

Cidades natais são engraçadas. Não circo engraçadas. Mais estranhas engraçadas.
Aquela mesma rua de comércio, onde letreiros e fachadas mudam com o tempo, mas as lojas continuam as mesmas.
Aquela sorveteria que seus pais te levam desde de criança, com mais opções de coisas pra colocar no sorvete do que opções de sabores em si.
Aquela mesma visão da sua janela: a rua, árvores, céu.

Há coisas que as cidades do interior tem que não fazem a mínima falta.
Encontrar pessoas (que você não gosta muito) na rua sempre que dá um passo pra fora de casa. Falta de opção do comércio. As três casas noturnas que se pode ir no fim de semana (duas delas tocam sertanejo). As pessoas novas que você conhece que nunca são novas de verdade porque são amigas ou até irmã(o)s de conhecidos.

A não aceitação. Os olhares atravessados por não estar usando as mesmas roupas que todo mundo.
O que se tem ser muito maior que o que se é.
As aparências provincianas. Como em uma história tirada da Geração Romântica do século XIX. Apenas trocaram-se as roupas. As atitudes continuam iguais.

E ainda sim, às vezes se sente aquela saudade. Porque há algumas coisas que apenas cidadezinhas do interior ostentam.
Conseguir encontrar a constelação do seu signo no céu estrelado. Comer até dizer chega e poder sentar no sofá sabendo que não precisa fazer nada o resto da tarde.
Abraço de mãe.

Mas Elas São Todas Iguais!

sábado, 16 de março de 2013

Postado por:Maria Raquel Silva

É difícil admitir que um dia você mudou alguma coisa para se enturmar. O cabelo, o jeito de falar, as roupas.
Não é uma coisa que se sente orgulho por ter feito, mas a maioria de nós já o fez em algum momento da vida. Mesmo sem ter consciência disso. Quase sempre sem ter consciência.

Nessa sociedade que preza cada vez mais o individualismo, não se encaixar em um certo comportamento de grupo é inaceitável.
Mas às vezes percebemos que o que estamos fazendo não é bom para nós. Não é algo de nós mesmos. Mudar por um outro para que ele te aceite. É um tanto quanto loucura.

Algumas pessoas vão tão a fundo nisso, e levam o sentimento de se enturmar tão a sério, que acabam ficando parecidas umas com as outras. É algo como o que vemos em grupos de garotas: cabelos lisos compridos normalmente castanhos ou com luzes, roupas de mesmas marcas, maquiagem parecida.
Parece que nenhuma tem personalidade própria. Que para se enturmarem tiveram que deixar de ser elas mesmas e se tornar "o grupo", a outra refletida em si, e si refletida na outra.

Falam, andam, gesticulam do mesmo jeito. E parecem realmente assustadas em presença do diferente.
Pessoas que agem igual tendem a desprezar, e muitas vezes hostilizar o diferente.
Se não tem a mesma aparência que elas não serve para ser visto no mesmo ambiente que elas frequentam.

É algo enojante. E algo que nunca conseguirei entender.
Por que pessoas querem ser iguais se a beleza está nas diferenças?
Por que usar as mesmas roupas e ter os mesmos cortes de cabelo?
Falar com as mesmas pessoas e fazer sempre as mesmas coisas?

Nunca vou entender essa acomodação com o "mais do mesmo". Essa necessidade de se cercar de pessoas idênticas e sem graça.
E de se achar melhor que os outros que são um pouquinho diferentes.
Até porque não há nada de superior em desprezar diferenças.

Pessoas que cultivam as diferenças não conseguem ser iguais a outras por muito tempo. Acaba cansando, irritando.
E é aí que "amizades" acabam. Que relacionamentos passam de "amigos" para "conhecidos" para "olho para sua cara mas não te cumprimento".

Mas essas "amizades" não fazem falta alguma.
Porque elas são todas iguais. E eu só consigo ser diferente.

Eponine Nunca Mais

segunda-feira, 11 de março de 2013

Postado por:Maria Raquel Silva

Cheguei a achar que era uma maldição. Que por alguma razão eu era uma garota amaldiçoada.
Como se todas aquelas histórias fictícias de contos de fadas pudessem se tornar realidade.
Talvez minha imaginação fosse um pouco selvagem. Talvez eu fosse dramática demais.
Mas uma coisa era um fato na época: eu parecia ser incapaz de me interessar por caras descompromissados.

E eu sempre fui a melhor amiga. Eles realmente não me viam de outra maneira.
Conversávamos sobre tudo mas sempre pairava aquela sensação. De que eu os colocava por primeiro enquanto para eles eu era só mais uma garota. Ou mais um amigo.

Mas aí a gente vai se distanciando das pessoas e vendo que aquele sentimento que se nutria com relação a elas não era saudável. Não era algo real.
Pra ser real tem que vir dos dois lados.
As duas pessoas tem que querer aquilo.
Querer um ao outro.

Abri os olhos pra perceber que não adianta ficar esperando.
Já esperei muito na vida. Meus pais na saída da escola, amigos me chamarem pra sair, o cara olhar pra mim do jeito que via a namorada.
Chega. Não quero mais ser Eponine.
Pra falar a verdade, Marius não vale tanto a pena assim.
Já to de olho é no Enjolras.


A Beleza da Tragédia Fictícia

segunda-feira, 4 de março de 2013

Postado por:Maria Raquel Silva

O ser humano é um animal muito curioso.
Não gostamos de sofrer. Queremos nossa vida linda, caminhos abertos, situações fáceis.
Não gostamos de tragédias nela. Tentamos ao máximo evitar dramas.
Mortes então, nem pensar!

Mas ao contrário do que desejamos a nossa vida, acontece algo um tanto diferente com o cinema e a televisão.
Vendo assim, de fora, a tragédia é algo lindo.
A tragédia alheia é algo curioso, chamativo, maravilhoso.

Não queremos vivenciá-la, mas adoramos assisti-la. Adoramos a sensação de deliciosa tristeza que a tragédia traz a nossos corações.
E a procuramos, a dizemos "bem encenada", e choramos por pessoas que não são nem reais.

A beleza da tragédia fictícia é que ela não é real. Não existe no mundo concreto. Não machuca ninguém para valer.
Mas mesmo assim, ainda faz nosso coração doer. Nem que seja só um pouquinho.
E depois vai embora e fica só a beleza.


Máscaras

sexta-feira, 1 de março de 2013

Postado por:Maria Raquel Silva

Nos comportamos diferentemente com diferentes pessoas. Não há como contestar isso.
Somos um com amigos de infância. Outro com o pessoal do trabalho. Outro com os amigos da faculdade e outro ainda com amigos que fazemos pela vida.
E um totalmente diferente com a família.
Talvez o mais verdadeiro com a família.

É como se, quanto mais conhece alguém, mais essa pessoa tem o privilégio (ou não) de conhecer-nos mais profundamente.
De saber realmente quem somos em nossa versão mais interior.

É como se usassemos várias máscaras com o formato de nosso próprio rosto. E vamos tirando-as conforme convivemos.

Não é como se quiséssemos passar aos outros o que não somos. Pois somos nós mesmos, mas em níveis diferentes. Níveis superficiais, médios ou profundos.
Não estamos fingindo. Talvez apenas ocultando algo. Que se pudermos, iremos mostrar conforme nos relacionarmos mais.
Isso não é algo ruim.
Apenas mostra como seres humanos são algo complexo. Maravilhosamente complexo.

Ser você mesmo, não importa em que nível.
Não olhar para alguém apenas pelo nível superficial que conhecemos.
Talvez seja muito mais difícil do que aceitar que nós mesmos temos camadas. E que não somos iguais com todo mundo.
Ninguém é apenas aquilo que aparenta.
Somos sempre muito, muito mais.
E isso é quase impossível de se ver.


 

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